‘Não quero que meus filhos vivam com medo’: as famílias que deixam a Flórida após nova lei de imigração

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Alejandra está rodeada de caixas e malas que não cabem no carro.

Ela está se preparando para uma viagem de 20 horas. Alejandra está se mudando da Flórida para Nova York, nos Estados Unidos, com seus três filhos. E ainda precisa definir o mais importante para eles: quais brinquedos irão ficar e quais eles podem levar na mudança.

Longe da avó e dos entes queridos que ficaram em Bogotá, na Colômbia, Alejandra conseguiu, durante os últimos dois anos, estabelecer uma rotina para as crianças em West Palm Beach, ao norte de Miami, no sul da Flórida.

A jovem colombiana de 30 anos levantava-se cedo para preparar o café da manhã. Depois, ela acompanhava Dominik — seu filho maior, de 11 anos — até o ponto do ônibus escolar e levava John e Samuel — os gêmeos, de 7 anos — para a escola.

Mas, quando a Flórida aprovou a lei SB 1718, com o apoio do governador republicano do Estado, Ron DeSantis, seus patrões avisaram aos funcionários que seus empregos estavam em risco.

A nova regulamentação, também chamada de “lei anti-imigração”, restringe o acesso dos indocumentados a empregos, carteiras de identidade, serviços de saúde e transporte. A lei entrou em vigor em 1º de julho.

Rumo a Nova York

Da mesma forma que Alejandra, a maioria dos funcionários da loja é de imigrantes sem documentos.

“Estão fechando as portas para mim e para os meus filhos”, afirma ela, enquanto embala os últimos pertences que os meninos irão levar para Nova York.

Lá, o irmão de Alejandra dará hospedagem para eles até que ela consiga um novo emprego.

Diferentemente da mãe, os meninos já falam inglês. Dominik entrou em um programa especial de matemática avançada, ciências e informática na escola. Seu sonho é estudar economia na Universidade Harvard (EUA).

“Eu me sinto menosprezada”, afirma Alejandra, enquanto separa um boneco Simba (do Rei Leão) de pelúcia, um dos poucos brinquedos que irá viajar com a família para Nova York. “Só o que quero é que meus filhos tenham a oportunidade de estudar e sejam profissionais.”

Nova York é um “Estado santuário”, como são chamados os locais em que os governadores democratas aprovaram leis para proteger os direitos dos indocumentados.

Já governadores republicanos, como DeSantis, vêm enviando para os Estados santuários, em ônibus ou aviões, os migrantes que chegam às suas jurisdições após cruzarem a fronteira ao sul.

Os dirigentes republicanos argumentam que a política migratória do governo do presidente Joe Biden permitiu que, em 2022, os Estados Unidos atingissem o maior aumento do fluxo migratório irregular através da fronteira com o México nas últimas duas décadas.

Alejandra e seus filhos também entraram no país pela fronteira com o México. E, agora, eles pedem asilo.

‘Mais forte do país’

DeSantis anunciou a SB 1718 como “a legislação contra a migração ilegal mais forte do país”.

A norma obriga que as empresas com 25 funcionários ou mais usem um sistema para verificar a situação migratória dos trabalhadores (chamado E-Verify). Impõe às empresas multas diárias de US$ 1 mil (cerca de R$ 4,8 mil) se empregarem um imigrante sem documentos e ameaça os empresários com a suspensão dos seus alvarás de funcionamento em caso de reincidência frequente.

A lei também proíbe que as autoridades locais da Flórida emitam documentos de identificação a estrangeiros que se encontrem nos Estados Unidos de forma irregular e invalida os cartões de identidade outorgados na mesma situação por outros Estados.

Os hospitais também são obrigados a coletar os dados migratórios dos pacientes e os apresentem às autoridades, para cálculo dos custos da assistência médica prestada às pessoas indocumentadas. E a lei também considera um delito grave o transporte de pessoas sem documentos para que ingressem no território da Flórida, mesmo no próprio carro.

O centro de estudos Migration Policy Institute, com sede na capital americana, Washington DC, calcula que 772 mil pessoas indocumentadas residem na Flórida.

Viver à sombra

Tadeo tem 12 anos e usa fraldas. Ele não fala, mas recebe terapias de fonologia e psicomotricidade em uma escola de West Palm Beach, segundo seu pai, Maikel Piriz.

Quando os médicos contaram que Tadeo tinha autismo em forma grave, seus pais visitaram escolas na cidade onde moravam — Canelones, no sul do Uruguai. Mas a melhor alternativa que elas ofereciam era sentar Tadeo em um canto e colocá-lo para brincar com blocos de figuras geométricas.

Piriz e sua esposa decidiram emigrar para os Estados Unidos, esperando poder encontrar centros especializados em autismo. Eles chegaram ao país em 2017, de avião, com vistos de turistas. A intenção era legalizar-se como imigrantes o mais breve possível.

Mas a nacionalidade uruguaia e o perfil da família aparentemente não se encaixavam em nenhum visto que abrisse caminho para sua estadia permanente na Flórida. Eles saíram e voltaram para os Estados Unidos duas vezes, mas não encontraram um mecanismo legal que permitisse sua permanência.

Agora, com a nova lei da Flórida, Piriz e sua esposa decidiram sair definitivamente dos Estados Unidos.

“Não vou permitir que meus filhos vivam à sombra, que sejam excluídos por não terem papéis”, afirma ele. Piriz trabalha em uma fazenda, limpando o estábulo dos cavalos.

‘Se começar a haver perseguição’

Carlos é mexicano e tem 53 anos. Ele ainda não tomou a decisão sobre se vai abandonar a Flórida.

Ele trabalha como entregador de tortilhas de milho para restaurantes e supermercados. O dono da empresa prometeu fazer todo o possível para manter o emprego de Carlos, mas a carteira de motorista dele está vencida há dois anos e, agora, ele não poderá renová-la enquanto estiver sem documentos.

“Finquei raízes na Flórida há 13 anos. É muito difícil levantar-se de repente e fazer uma vida nova em outro lugar, de um momento para o outro”, ele conta, durante um intervalo no seu caminho diário para entregar as tortilhas de milho.

Toda semana, Carlos envia US$ 100 a US$ 200 (cerca de R$ 480 a R$ 960) para seus três filhos na cidade de Colima — a capital do Estado de mesmo nome, a oeste da Cidade do México.

Carlos afirma que irá considerar a possibilidade de sair da Flórida se houver uma caça às bruxas contra os indocumentados.

“Preciso ver se, a partir de agora, a polícia irá deter as pessoas na rua aleatoriamente, se vão nos perseguir por causa da cor da pele”, afirma ele. “Se começar a haver perseguição, vou embora. Não estou disposto a perder a minha paz por causa dessa lei.”

Os donos dos comércios onde Carlos entrega os produtos comentam que, nas últimas semanas, o consumo e a venda de tortilhas de milho diminuiu — muitos dos seus clientes já foram embora da Flórida.

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